Dor na relação não é normal: causas e tratamento

Sentir dor na relação não deve ser considerado normal. Conheça possíveis causas, entenda o papel do assoalho pélvico e saiba quando procurar ajuda.

Ana Luiza Quadros

7/21/20265 min read

Durante muitos anos de atendimento, ouvi mulheres dizerem frases muito parecidas:

“Pensei que fosse normal.”

Achei que era por causa da idade.”

“Imaginei que precisaria aprender a conviver com isso.”

Talvez uma das partes mais difíceis da dor durante a relação íntima seja justamente esta: muitas mulheres convivem com o desconforto em silêncio durante meses ou até anos.

Algumas sentem vergonha de falar. Outras têm medo de não serem compreendidas. Há também quem comece a evitar a intimidade, não por falta de carinho ou desejo, mas pelo receio de sentir dor novamente.

Sentir dor durante a relação não deve ser tratado como algo inevitável. Existem diferentes causas possíveis, e cada mulher precisa ser avaliada de maneira individualizada.

O que é a dor durante a relação?

A dor associada à atividade sexual também pode ser chamada de dispareunia. Ela pode surgir antes, durante ou depois da relação e apresentar características diferentes.

Algumas mulheres sentem dor, ardência ou desconforto logo na entrada vaginal. Outras percebem uma dor mais profunda, principalmente em determinadas posições. Também há casos em que a dor aparece somente em algumas situações ou permanece depois da relação.

Essa diferença é importante porque a localização, a intensidade e o momento em que o sintoma aparece ajudam os profissionais envolvidos a investigar suas possíveis causas. A dor pode estar relacionada, por exemplo, a alterações hormonais, condições ginecológicas, infecções, doenças da pele, cicatrizes ou alterações na musculatura do assoalho pélvico.

Quais são as possíveis causas?

Não existe uma única explicação para todas as mulheres. Em alguns casos, há mais de um fator envolvido. Por isso, evitar diagnósticos por conta própria e procurar uma avaliação adequada faz diferença.

Alterações hormonais

Durante a perimenopausa e a menopausa, a redução dos níveis de estrogênio pode provocar mudanças nos tecidos da vulva, da vagina e do trato urinário.

Algumas mulheres percebem:

  • ressecamento vaginal;

  • ardência ou irritação;

  • redução da elasticidade dos tecidos;

  • desconforto ou dor durante a penetração;

  • sintomas urinários associados.

Esse conjunto de alterações pode fazer parte da chamada síndrome geniturinária da menopausa. Ela não deve ser entendida apenas como “falta de lubrificação”, porque pode envolver diferentes estruturas e merece avaliação profissional.

Mudanças hormonais também podem ocorrer em outras fases, como durante a amamentação, e influenciar o conforto íntimo.

Tensão aumentada no assoalho pélvico

Para muitas pessoas, falar em assoalho pélvico lembra apenas exercícios de contração. Mas essa musculatura também precisa conseguir relaxar, adaptar-se e coordenar seus movimentos.

Quando os músculos permanecem muito tensos ou apresentam pontos dolorosos, a penetração pode provocar ardência, pressão ou dor. Algumas mulheres também percebem dificuldade em usar absorvente interno, realizar exames ginecológicos ou permitir qualquer aproximação da região vaginal.

Nesses casos, fazer exercícios de fortalecimento sem avaliação pode não ser a melhor escolha. O tratamento pode precisar priorizar consciência corporal, relaxamento, mobilidade, respiração e redução da sensibilidade dolorosa. A fisioterapia pélvica é considerada uma opção importante quando há participação neuromuscular ou tensão aumentada do assoalho pélvico.

Cicatrizes após parto ou cirurgia

Cicatrizes decorrentes de lacerações, episiotomia, cesariana ou outras cirurgias podem alterar a mobilidade e a sensibilidade dos tecidos.

Nem toda cicatriz provoca dor. Entretanto, quando há aderência, sensibilidade aumentada ou tensão muscular ao redor da região, ela pode contribuir para o desconforto.

Condições ginecológicas e outras alterações de saúde

A dor profunda pode estar associada a condições como endometriose, cistos ovarianos ou outras alterações pélvicas. Infecções, inflamações e algumas doenças dermatológicas da vulva também podem causar ardência, sensibilidade ou dor.

Por isso, a fisioterapia pélvica não substitui a avaliação médica. Dependendo dos sintomas, o cuidado pode precisar envolver ginecologista, fisioterapeuta pélvica, profissional de saúde mental ou outros integrantes de uma equipe multidisciplinar.

E quando o medo passa a fazer parte da experiência?

Depois de sentir dor repetidas vezes, é natural que a mulher comece a antecipar o que pode acontecer.

Antes mesmo da relação, o corpo pode ficar em alerta. A respiração muda, a musculatura se contrai involuntariamente e a dificuldade de relaxar aumenta. Isso não significa que a dor seja “apenas psicológica” ou que esteja sendo imaginada.

A dor é real.

O que acontece é que corpo, emoções e experiências anteriores podem passar a alimentar um ciclo:

dor → medo de sentir dor → tensão muscular → maior desconforto.

Com o tempo, algumas mulheres começam a evitar a intimidade, sentem culpa ou acreditam que perderam o desejo. Entretanto, nem toda mulher que evita a relação deixou de desejar proximidade. Às vezes, ela apenas está tentando se proteger de uma experiência dolorosa. A repetição da dor pode estar associada ao medo, à evitação e à redução da excitação e do desejo.

Como a fisioterapia pélvica pode ajudar?

O primeiro passo é ouvir a história daquela mulher.

Na avaliação, a fisioterapeuta procura compreender:

  • onde a dor aparece;

  • quando ela começou;

  • se ocorre na entrada ou em uma região mais profunda;

  • se existe ardência, ressecamento ou sensação de tensão;

  • se há histórico de parto, cirurgia ou outras condições;

  • como o sintoma interfere na vida, na autoestima e no relacionamento.

Quando indicada e autorizada pela paciente, a avaliação física ajuda a observar mobilidade, sensibilidade, coordenação e capacidade de contração e relaxamento do assoalho pélvico.

O tratamento não é igual para todas. Dependendo do que for identificado, pode envolver educação sobre a dor, técnicas de respiração e relaxamento, terapia manual, recursos de biofeedback, dessensibilização gradual, melhora da mobilidade dos tecidos e orientações individualizadas.

A fisioterapia pélvica não consiste apenas em ensinar exercícios. Em quadros de tensão muscular, o objetivo frequentemente é recuperar a capacidade de relaxar e reduzir a resposta dolorosa, e não simplesmente fortalecer. Estudos e orientações clínicas reconhecem a fisioterapia pélvica como parte do cuidado em diferentes quadros de dor sexual e dor vulvar.

Quando procurar ajuda?

Vale buscar avaliação quando a dor:

  • acontece de forma repetida;

  • está aumentando;

  • provoca medo ou leva à evitação da intimidade;

  • interfere no relacionamento ou na qualidade de vida;

  • vem acompanhada de sangramento, corrimento, feridas, coceira, febre ou sintomas urinários;

  • começou depois de uma cirurgia, parto ou mudança hormonal;

  • aparece durante exames ginecológicos ou com a tentativa de inserção vaginal.

Dor súbita e intensa, sangramento importante, febre ou mal-estar exigem avaliação médica com maior brevidade.

Não é necessário esperar que o problema se torne insuportável. Procurar ajuda cedo pode evitar que o medo, a tensão e o sofrimento emocional se tornem ainda maiores.

O tratamento precisa respeitar o tempo de cada mulher

Quando se fala em intimidade, não existe espaço para pressa ou imposição.

A mulher precisa compreender o que está acontecendo, sentir-se segura durante a avaliação e participar das decisões sobre o próprio tratamento. Nenhuma técnica deve ser realizada sem explicação e consentimento.

O cuidado pode ser gradual. Cada pequena mudança — compreender o sintoma, voltar a confiar no corpo, diminuir o medo ou perceber mais conforto — faz parte do processo.

Reflexão do consultório 🤎

Nenhuma mulher deveria acreditar que sentir dor é o preço de viver a intimidade.

Conviver em silêncio não precisa ser a única opção.

A dor merece investigação. A mulher merece ser escutada. E o tratamento precisa considerar não somente o sintoma, mas toda a experiência vivida ao redor dele.

Ana Luiza Quadros

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