Dor na relação: por que você pode começar a evitar a intimidade?
Entenda por que a dor na relação pode fazer uma mulher começar a evitar a intimidade aos poucos e como isso é considerado na fisioterapia pélvica.
Ana Luiza Quadros
9/22/20265 min read


Dor na relação: por que você pode começar a evitar a intimidade sem perceber?
Nem sempre uma mulher percebe o momento em que começou a evitar a intimidade.
Muitas vezes, ela percebe apenas as pequenas mudanças que vieram depois.
Começou a dizer que estava cansada com mais frequência. Ficou aliviada quando a relação não aconteceu. Passou a pensar antes de uma aproximação: “Será que hoje vai doer?”
E, aos poucos, algo que antes podia acontecer com espontaneidade começa a vir acompanhado de atenção, preocupação e expectativa.
No consultório, eu percebo que muitas mulheres não decidiram evitar.
Elas foram começando a evitar sem perceber.
Quando a dor deixa de acontecer apenas no momento da relação
Quando pensamos em dor durante a relação sexual, é comum imaginar apenas o momento em que a dor acontece.
Mas a experiência pode começar muito antes.
Depois de sentir dor algumas vezes, é compreensível que a mulher comece a pensar na possibilidade de aquilo acontecer novamente.
Ela pode prestar mais atenção ao corpo, perceber se está ficando tensa, antecipar determinados movimentos ou ficar preocupada antes mesmo de saber se haverá dor.
Isso não significa que “a dor está na cabeça”.
A dor é uma experiência real e pode ter diferentes fatores envolvidos. A literatura sobre dor gênito-pélvica mostra justamente que sua avaliação pode precisar considerar aspectos físicos, psicológicos e relacionais, em vez de procurar uma única explicação para todas as mulheres.
Evitar nem sempre começa com um “não”
Esse é um ponto que considero importante.
Evitar a intimidade nem sempre significa recusar uma relação de forma clara.
Às vezes, começa de maneira muito mais sutil.
A mulher adia aquele momento.
Vai dormir um pouco mais tarde.
Espera o parceiro dormir.
Sente alívio quando percebe que naquele dia provavelmente não haverá relação.
Ou simplesmente começa a evitar situações que antes poderiam levar naturalmente a uma aproximação.
Quando pergunto sobre isso no consultório, nem sempre a mulher tinha percebido essas mudanças como parte da história da dor.
Ela apenas foi se adaptando.
E, muitas vezes, evitar foi uma maneira de tentar não passar novamente por uma experiência que havia se tornado dolorosa ou preocupante.
Modelos clínicos sobre dor gênito-pélvica descrevem justamente a possibilidade de medo e evitação passarem a fazer parte do problema em algumas mulheres, embora isso não aconteça da mesma forma para todas.
Se eu evito a relação, significa que perdi o desejo?
Não necessariamente.
Essa talvez seja uma das confusões mais dolorosas para algumas mulheres — e também para seus parceiros.
Uma mulher pode sentir desejo, sentir falta da intimidade, amar o parceiro e, ao mesmo tempo, ter receio de viver novamente uma experiência dolorosa.
Por isso, quando uma mulher começa a evitar a relação, eu procuro não concluir rapidamente que existe falta de desejo.
Eu quero entender o que ela está evitando.
A aproximação?
A penetração?
A possibilidade de sentir dor?
A preocupação de não saber se vai conseguir relaxar?
Ou até a conversa que teria de acontecer caso precisasse explicar por que não quer continuar?
Essa diferença importa.
E quando a mulher continua tendo relação mesmo com preocupação?
Também acontece.
Nem toda mulher que sente dor passa a evitar completamente a intimidade.
Algumas continuam tendo relação.
Mas passam a vivê-la de outra maneira.
Elas conseguem — porém ficam observando o corpo.
Pensam na posição.
Tentam perceber se a musculatura começou a ficar tensa.
Calculam até onde conseguem continuar.
Esperam para descobrir se naquele dia vai doer.
Por isso, uma frase que escuto como fisioterapeuta merece sempre uma pergunta a mais:
“Eu consigo ter relação.”
Tudo bem. Mas como essa mulher está vivendo essa relação?
Conseguir ter relação não significa necessariamente conseguir vivê-la sem preocupação.
Por que isso importa na avaliação fisioterapêutica?
Porque eu não quero saber apenas onde dói.
Quero entender a história daquela dor.
Quando começou?
Em quais situações aparece?
O que mudou depois dela?
O que a mulher passou a evitar?
O que começou a antecipar?
Como está a musculatura do assoalho pélvico?
Existe dificuldade para relaxar ou coordenar essa musculatura?
Existem alterações de sensibilidade, mobilidade ou outros achados que precisam ser considerados?
E como tudo isso aparece na vida daquela mulher?
A fisioterapia pélvica pode fazer parte do tratamento da dispareunia, e estudos mostram benefícios de diferentes abordagens fisioterapêuticas para dor e outros desfechos. Ao mesmo tempo, os protocolos estudados são bastante heterogêneos, o que reforça a importância de não transformar o tratamento em uma receita igual para todas.
O tratamento não deveria começar escolhendo uma técnica
Eu gosto de pensar assim porque, no consultório, duas mulheres podem chegar dizendo exatamente a mesma coisa:
“Tenho dor na relação.”
E, quando começo a avaliar, posso encontrar histórias e necessidades muito diferentes.
Para uma mulher, pode ser importante trabalhar percepção e relaxamento da musculatura.
Outra pode apresentar alterações que indiquem outras estratégias.
Outra talvez esteja há tanto tempo preocupada com a dor que o próprio processo de avaliação e tratamento precise acontecer de maneira mais gradual.
Por isso, antes de pensar em exercícios, terapia manual, dilatadores ou qualquer outro recurso, eu prefiro entender quem é aquela mulher e o que o corpo dela está me mostrando naquele momento.
A literatura também aponta para abordagens multimodais e individualizadas na avaliação e no manejo de condições associadas à dor sexual e à hiperatividade do assoalho pélvico.
Perceber o que mudou também faz parte do caminho
Às vezes, durante a conversa, a mulher começa a juntar acontecimentos que até então pareciam separados.
A dor.
O medo de sentir novamente.
A desculpa.
O alívio quando a relação não acontece.
A perda da espontaneidade.
As situações que começou a evitar.
E é nesse momento que ela percebe:
“Eu não sabia que tinha mudado tanta coisa.”
Para mim, essa percepção importa.
Porque tratar a dor durante a relação não é olhar apenas para alguns minutos de uma experiência.
É compreender também tudo aquilo que começou a acontecer antes, durante e depois dela.
E, muitas vezes, a mulher só percebe o quanto vinha se adaptando quando encontra espaço para contar a própria história. 🤎
Fontes científicas
DIAS-AMARAL, A.; MARQUES-PINTO, A. Female Genito-Pelvic Pain/Penetration Disorder: Review of the Related Factors and Overall Approach. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 40, n. 12, p. 787–793, 2018. DOI: 10.1055/s-0038-1675805.
FERNÁNDEZ-PÉREZ, P. et al. Effectiveness of physical therapy interventions in women with dyspareunia: a systematic review and meta-analysis. BMC Women's Health, v. 23, art. 387, 2023. DOI: 10.1186/s12905-023-02532-8. Esta é uma revisão sistemática com meta-análise de intervenções fisioterapêuticas para mulheres com dispareunia.
PADOA, A.; McLEAN, L.; MORIN, M.; VANDYKEN, C. The Overactive Pelvic Floor (OPF) and Sexual Dysfunction. Part 2: Evaluation and Treatment of Sexual Dysfunction in OPF Patients. Sexual Medicine Reviews, v. 9, n. 1, p. 76–92, 2021. DOI: 10.1016/j.sxmr.2020.04.002. A revisão aborda avaliação abrangente, assoalho pélvico hiperativo, dor sexual e diferentes possibilidades terapêuticas dentro de uma abordagem biopsicossocial.
SCHVARTZMAN, R. et al. Physical Therapy Intervention for Women With Dyspareunia: A Randomized Clinical Trial. Journal of Sex & Marital Therapy, v. 45, n. 5, p. 378–394, 2019. DOI: 10.1080/0092623X.2018.1549631. Ensaio clínico randomizado que avaliou uma intervenção fisioterapêutica em mulheres com dispareunia.
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