Faço exercícios para o assoalho pélvico, mas continuo perdendo urina. Por quê?

Fazer exercícios todos os dias nem sempre significa que o assoalho pélvico está funcionando da forma adequada

Ana Luiza Quadros

7/14/20264 min read

Uma frase que escuto com frequência no consultório é:

“Dra., eu faço os exercícios todos os dias, mas continuo perdendo urina.”

Muitos pacientes chegam frustrados.

Alguns já assistiram vídeos na internet, receberam uma orientação rápida ou aprenderam a contrair o assoalho pélvico em algum momento do tratamento.

Eles realmente se esforçam.

Fazem os exercícios todos os dias.

Mesmo assim, a perda urinária continua.

E então surge uma dúvida muito comum:

“Por que não estou melhorando?”

A resposta nem sempre é simples.

Fazer exercícios para o assoalho pélvico pode fazer parte do tratamento da incontinência urinária, mas apenas repetir contrações todos os dias não significa necessariamente que o tratamento esteja adequado para aquela pessoa.

Antes de fazer mais exercícios, precisamos entender como o assoalho pélvico está funcionando.

O assoalho pélvico não precisa apenas de força

Quando falamos em fisioterapia pélvica, muitas pessoas pensam imediatamente em fortalecimento.

Mas a musculatura do assoalho pélvico precisa fazer muito mais do que simplesmente contrair com força.

Ela precisa conseguir contrair no momento adequado.

Sustentar uma contração quando necessário.

Relaxar.

Coordenar seu funcionamento com a respiração e com outros músculos do corpo.

Responder às situações de aumento da pressão abdominal, como tossir, espirrar, levantar peso ou mudar de posição.

Por isso, um músculo aparentemente “forte” nem sempre significa um assoalho pélvico funcional.

Força é apenas uma parte da função muscular.

Será que estou contraindo a musculatura correta?

Essa é outra situação bastante comum.

Nem todas as pessoas conseguem identificar e contrair corretamente o assoalho pélvico sem uma avaliação.

Algumas contraem excessivamente o abdômen.

Outras apertam os glúteos.

Há pacientes que prendem a respiração durante o exercício.

E também existem pessoas que fazem muita força, mas apresentam dificuldade para recrutar adequadamente a musculatura que realmente precisa trabalhar.

Isso não significa falta de dedicação.

Muitas vezes, o paciente simplesmente nunca teve a oportunidade de compreender como o próprio assoalho pélvico funciona.

Por isso, a avaliação fisioterapêutica é tão importante.

Fazer mais exercícios nem sempre significa melhorar mais rápido

Quando um paciente continua perdendo urina, uma reação bastante comum é aumentar a quantidade de exercícios.

Ele fazia dez contrações e passa a fazer vinte.

Depois, cinquenta.

Alguns repetem os exercícios várias vezes ao longo do dia.

Mas musculatura também precisa de um programa adequado às suas necessidades.

Quantidade não substitui qualidade.

Dependendo da avaliação, o paciente pode precisar trabalhar força, resistência, coordenação, controle ou outras características da função muscular.

Por isso, copiar uma sequência de exercícios da internet ou repetir o protocolo de outra pessoa nem sempre oferece o resultado esperado.

Cada assoalho pélvico possui necessidades diferentes.

Por que a perda de urina pode continuar?

A incontinência urinária pode estar relacionada a diferentes fatores.

O tipo de perda urinária, o histórico de saúde, cirurgias anteriores, alterações neurológicas, hábitos urinários e o funcionamento do assoalho pélvico precisam ser considerados.

Nos homens submetidos à prostatectomia radical, por exemplo, a recuperação da continência urinária pode variar de uma pessoa para outra.

Nas mulheres, a perda urinária também pode acontecer em diferentes situações e apresentar características distintas.

Algumas pessoas perdem urina ao tossir, espirrar ou praticar exercícios.

Outras apresentam uma vontade súbita e difícil de controlar de ir ao banheiro.

Também existem pacientes que apresentam uma combinação de sintomas.

Por isso, antes de definir o tratamento, precisamos compreender qual é o tipo de incontinência e quais fatores estão envolvidos naquele caso.

O exercício precisa fazer sentido para o seu caso

Na fisioterapia pélvica, não gosto de pensar em uma receita igual para todos.

Dois pacientes podem chegar ao consultório com a mesma queixa de perda urinária e apresentar necessidades completamente diferentes durante a avaliação.

Um pode precisar melhorar a percepção da musculatura.

Outro pode apresentar dificuldade de coordenação.

Outro precisa trabalhar resistência.

E existem situações em que apenas orientar exercícios para o assoalho pélvico não é suficiente para abordar todos os fatores relacionados aos sintomas.

É justamente por isso que a avaliação individualizada faz diferença.

O tratamento deve ser construído a partir do que encontramos no paciente, e não apenas a partir do nome do sintoma.

E se eu já faço exercícios há meses e não melhorei?

Se você realiza exercícios para o assoalho pélvico há algum tempo e continua apresentando perda urinária, talvez seja o momento de reavaliar o tratamento.

Isso não significa automaticamente que a fisioterapia não funciona para você.

Também não significa que você precise simplesmente aumentar a quantidade de exercícios.

Pode ser necessário compreender melhor o tipo de perda urinária, avaliar o funcionamento da musculatura e revisar a estratégia utilizada até aquele momento.

Na minha prática clínica, considero muito importante entender o que o paciente já fez.

Quais exercícios realizou.

Com que frequência.

Como aprendeu a executá-los.

Em quais situações perde urina.

E como os sintomas evoluíram ao longo do tempo.

Essas informações ajudam a construir um raciocínio mais individualizado.

A fisioterapia pélvica vai além de ensinar exercícios

Ainda existe uma ideia de que a fisioterapia pélvica consiste apenas em ensinar o paciente a “apertar e soltar” a musculatura.

Mas a reabilitação do assoalho pélvico é muito mais ampla.

O fisioterapeuta avalia a função muscular, os sintomas, os hábitos do paciente e as situações em que a perda urinária acontece.

A partir dessa avaliação, o tratamento pode ser planejado de acordo com as necessidades encontradas.

Em alguns casos, os exercícios fazem parte importante desse processo.

Mas o objetivo não é simplesmente fazer o paciente contrair mais.

O objetivo é ajudá-lo a recuperar função, controle e qualidade de vida.

Conclusão

Se você faz exercícios para o assoalho pélvico todos os dias e continua perdendo urina, talvez a pergunta não seja:

“Preciso fazer mais exercícios?”

Talvez a pergunta seja:

“Meu assoalho pélvico está sendo trabalhado da forma adequada para o meu caso?”

Nem sempre fazer mais significa tratar melhor.

Compreender o tipo de incontinência, avaliar o funcionamento da musculatura e construir um tratamento individualizado pode fazer toda a diferença na recuperação.

Cada paciente possui uma história.

E o tratamento precisa respeitar essa individualidade.

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